Teoria do Não-Objeto
Ferreira Gullar
- O não-objeto não é algo negativo, mas uma síntese entre o que sentimos e o que pensamos → "pura aparência".
- O Impressionismo iniciou a crise da arte figurativa ao dissolver o objeto em luz e cor.
- Com essa mudança, a coerência da obra passou a depender apenas do seu próprio interior.
- O Cubismo deu um passo adiante ao retirar a opacidade e a "massa" das coisas naturais.
- Superfície da tela → própria presença física da obra de arte (Mondrian)
- Moldura: meio-termo entre ficção e realidade.
- O não-objeto abandona as molduras e bases para ocupar o espaço físico real.
- Luta contra o objeto: eliminar o peso e a massa.
- O objeto se esgota na referência de uso e de sentido, diferente do não-objeto, que não se insere na condição de útil da designação verbal.
- O objeto só pode ser apreendido pelo sujeito nas conotações e nome e uso. Já a significação do não-objeto é imanente à sua própria forma.
- O não-objeto não é uma representação, mas uma "presentação" direta de si mesmo.
- A pintura não-figurativa ainda é representativa, pois as linhas e formas ainda fazem alusão à um objeto real.
- A contradição figura-fundo é insolúvel no plano da percepção, já que tudo que se percebe está sobre um fundo. No não-objeto, o fundo é o espaço real, assim como o não-objeto.
- A moldura e a base significam que a linguagem da obra é representativa.
- Pinturas, esculturas e poesias tentam romper com a significação usual para uma nova significação (Ex: surgimento de diferentes movimentos artísticos que se contrapõem).
- O não-objeto irrompe da não-significação para a significação.
- No campo da poesia, o não-objeto verbal funciona como um "antidicionário", libertando a palavra para que seu som e forma visual despertem múltiplos sentidos.
- A obra é propositalmente inconclusa, convidando o espectador a deixar de apenas olhar para começar a agir sobre a obra.
- O gesto de quem interage é o que completa o sentido final do trabalho artístico.
- O tempo que o público dedica à ação incorpora-se ao objeto e permanece nele.
- A contemplação conduz à ação que conduz a uma nova contemplação.
SIGNIFICADOS CONTEXTUAIS DE TERMOS PRESENTES NO TEXTO
De acordo com o contexto histórico e artístico do texto, seguem os significados:
- Fenomenológico: Refere-se à percepção direta da coisa como ela se apresenta à consciência, antes de qualquer categorização intelectual ou uso prático. O não-objeto é "transparente" a esse olhar porque não esconde uma "opacidade" de objeto comum.
- Tachismo: Estilo de pintura abstrata (do francês tache, mancha) que prioriza o gesto e a matéria. Gullar critica o tachismo por ser "reacionário", pois ainda mantém a moldura e o espaço convencional, apenas jogando materiais brutos dentro dela.
- Imanente: Aquilo que é inerente à própria natureza da coisa. No texto, a significação do não-objeto é imanente à sua forma, ou seja, o sentido não vem de algo externo ou de uma representação, mas da sua própria existência física.
- Multivocidade: Refere-se à pluralidade de vozes ou sentidos. No "não-objeto verbal", a palavra é liberta do dicionário para que sua carga de múltiplos significados seja intensificada por elementos visuais.
- Morosidade: Indica uma lentidão ou densidade. Gullar usa o termo para descrever a "opacidade" do objeto comum, que é pesado e difícil de ser totalmente compreendido pela percepção, ao contrário do não-objeto, que seria imediato e "transparente".
- Espaço Pictório: Refere-se ao espaço "dentro" do quadro, delimitado pela moldura. É um espaço ilusório ou simbólico onde a pintura acontece, funcionando como uma janela que separa o mundo da obra do espaço real em que o espectador pisa.
- Transfiguração: É o processo de transformar a natureza de algo. Na arte, é o ato de retirar um material ou objeto de sua condição comum e elevá-lo a uma nova dimensão poética, dando-lhe um sentido que ele originalmente não possuía.
OBRAS MENCIONADAS NO TEXTO
Broadway Boogie Woogie (1942-43) - Piet Mondrian
Merzbau - Kurt Schwitters
A Fonte (1917) - Marcel Duchamp
Série Bichos - Lygia Clark
Livro da Criação - Lygia Pape.
Impressão, Nascer do Sol - Claude Monet
Quadrado Preto sobre Fundo Branco - Kazimir Malevitch
Escultura em ferro - Amílcar de Castro
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