Lições de Arquitetura
Herman Hertzberger
A - Domínio Público
- Individual e coletivo são interdependentes.
- Público vs Privado: acesso, responsabilidade, supervisão de unidades espaciais.
- Gradações de demarcação territorial: diferentes graus de acesso (Ex: o quarto é mais privado do que a sala em uma casa).
- O caráter público do espaço está relacionado ao uso (roupa no varal na Europa: rede de cabos que atravessa a rua).
Varal na Europa
- Forma, material, luz, cor são determinadas pelo grau de acesso exigido.
- Caráter da área: quem é responsável pelo espaço.
- Estimular a influência dos usuários no espaço → estimula que usuários zelem pelo espaço (Ex: Central Beheer → cada funcionário tem sua "ilha particular" → os funcionários consideram aquele espaço como seu domínio, cuidando dele).
Edifício de Escritórios Central Beheer
- Criar condições para maior nível de responsabilidade por parte dos usuários (Ex: Escola Montessori → salas autônomas → afinidade emocional, "ninho seguro" → dever).
- Soleira como intervalo: espaço de encontro e reconciliação entre a rua e o domínio privado (Ex: criança sentada no degrau em frente à sua casa).
Criança sentada no degrau em frente à sua casa
- Soleira → hospitalidade, permite o contato social e a privacidade simultaneamente (Ex: saliência na cobertura - Escola Montessori; escadas comunitárias em prédios - Residência Documenta Urbana).
- Sugestões espaciais na área pública → usuários se sentem mais inclinados a expandir sua influência → apropriar-se → maior qualidade do espaço público e interesse comum (Ex: Moradias LiMa → moradores decoraram as laterais do tanque de areia com mosaico).
- Obra pública é vista como imposição vinda de cima, "não tenho nada a ver com isso" → sentimento de alienação.
- O arquiteto deve criar ambientes que ofereçam oportunidade para as pessoas deixarem sua marca pessoal (Ex: espaço cercado com animais no De Drie Hoven Lar para Idosos → convite ao envolvimento no cuidado com os animais ou simples passeio).
- A rua, que deveria ser uma "sala de estar comunitária", é considerada um mundo hostil, de ameaças (aumento do individualismo).
- "Quanto mais isoladas e alienadas as pessoas, mais fácil controlá-las com decisões autoritárias."
- Cabe ao arquiteto transformar a rua em espaço de convivência (Ex: Familistère → pátio coberto e moradias como muro → convidativo para atividades comunitárias).
Familistère, Guise, França
- Proporção da dimensão do lugar público (Ex: cuidar para o "amplo" não virar "deserto").
- Rua: domínio público → funciona para estimular a interação social e refleti-la.
- Comércio → intercâmbio social → centralização das atividades em um único local fechado (Ex: Torre Eiffel).
- Controle dos materiais → expansão das possibilidades (Ex: Aço → possibilitou erguer em pouco tempo grandes estruturas com enormes vãos).
- Galeria: espaços públicos "abertos e fechados".
- Sequência gradual de indicação arquitetônica.
- Altura, iluminação, materiais influenciam na percepção de interior e exterior → O arquiteto, por meio desses recursos, deve tornar edifícios mais acessíveis e ruas mais convidativas.
B - Criando espaço, deixando espaço
- Estrutura → Regras → Limitação→ Possibilidade → Liberdade (que se divide em: Competência e Desempenho).
- Competência: capacidade da forma de ser interpretada.
- Desempenho: como a forma foi interpretada.
- Estrutura: mínima mudança, muitos usos (Ex: Canais de Amsterdã → antes eram utilizados para defesa e transporte, hoje são usados para turismo).
Canais de Amsterdã
- Estrutura → coletivo/ Interpretação → individual (diversidade).
- Moradias massificadas → não permitem a expressão pessoal.
- A estrutura, em sua constância, deve ser capaz de absorver a mudança (Ex: Universidade Livre, Berlim → conglomerado acadêmico coberto, no qual espaços podem ser levantados ou desmanchados dentro de uma rede fixa).
- Grelha: ordenamento mínimo da cidade.
- Ex: Ensanche, Barcelona → faixas que podiam alternar a direção por quadras → muitas possibilidades de variação; esquinas com uma fachada diagonal.
Ensanche, Barcelona
- Grade: estabelece as regras gerais, mas é flexível demais para o detalhamento de cada sítio (Associa-se ao jogo de xadrez: regras simples que permitem muitas possibilidades).
- Ordenamento da construção → partes determinam o todo e são determinadas por ele → estrutura programada para acomodar todas as inserções possíveis.
- Associa-se a unidade de maior do ordenamento da construção à classificação dos estilos arquitetônicos: cada elemento tem sua função específica e se deixa combinar com outros de acordo com regras específicas. O "kit de construção" determina seu potencial espacial.
- Ex: Escritório Central Beheer → edifício como um grupo de ilhas, cada ilha em forma de quadrado, uma forma polivalente, capaz de atender a variados requisitos espaciais → Estrutura básica e a zona interpretável se complementam.
Edifício de Escritórios Centraal Beheer
- Funcionalidade → solução demasiadamente específica / Flexibilidade → panaceia para todos os males da arquitetura.
- Polivalência: uma forma que se preste a diversos usos sem que ela mesma tenha de sofrer mudanças (Maior polivalência → maior potencial para interpretação individual).
- Escola Montessori: vidraças com saliências largas (abrigar vários tipos de bugigangas); pódio de tijolos no ponto central do saguão (colocar materiais durante aulas, pode-se ampliar a plataforma para transformar em um palco).
- Praça Vredenburg: árvores com caixas em volta (delimitam barracas de feira).
- O arquiteto deve demonstrar e indicar as possibilidades → a forma deve provocar associações e encorajar o uso individual, para que moradores se apropriem do espaço.
- Ex: Blocos perfurados para construção → parecem inacabados, pedem para ser usados.
Blocos perfurados para construção
C - Forma Convidativa
- Forma convidativa: a forma que mais possui afinidade com as pessoas.
- Sem intencionalidade, as formas oferecem oportunidades que são apropriadas "de passagem" (Ex: parapeitos, balaustradas, pilares e canaletas).
- Calçada levantada como assento, parapeito como local para descanso, corrimão como brincadeira para crianças, "Brise Soleil", pilastra com base alargada.
Calçada levantada, Buenos Aires
Praça de São Pedro, Roma
- Fazer mais com o mesmo material, organizando-o de maneira diferente.
- Articulação dos lugares:
- Dimensão correta: Usos diferentes, dimensão diferente.
- Fornecer o lugar: "Faça de cada casa um lugar, faça de cada casa e de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa é uma cidade minúscula e uma cidade é uma casa enorme" (Aldo van Eyck, 1962).
- Articulação: acomodar o padrão das relações de quem vai usar o espaço.
- Qualquer um, em qualquer situação, deve ser capaz de escolher sua posição em relação aos outros (graus de separação dos lugares, domínios). (Ex: Alojamento para estudantes Weesperstraat → patamar espaçoso sobre a escada mais elevado que a seção do restaurante no nível de baixo – quem se senta no parapeito fica no mesmo nível das pessoas no restaurante, facilitando o contato entre os espaços).
- "Trazer o mundo exterior para dentro" → Na Holanda, utiliza-se amplamente o vidro e as aberturas por razões culturais e climáticas. No entanto, tal utilização não é tão adequada ao contexto brasileiro (preza-se por mais privacidade e o clima não é favorável às aberturas com muitos vidros).
Fábrica Van Nelle, Rotterdam
- A arquitetura deve ser capaz de acomodar as diferentes situações: mudança de tempo, estação, dia e noite, além de sentimentos e desejos das pessoas.
- Abstração da forma → redução de informações da maneira como funciona.
- Devemos sempre buscar a forma com a articulação de referência mais rica, oferecendo o máximo de possibilidades de experiência.
- Mostrar como as coisas funcionam → maior consciência dos fenômenos do ambiente.
- Equivalência: A importância depende da situação. Deve-se evitar, na arquitetura, a criação de condições espaciais em que o autoritarismo floresce.
- O arquiteto deve se preocupar com as frentes e os fundos, ou seja, não se preocupar apenas com o extraordinário, mas também com o cotidiano. A arquitetura deve ser convidativa a todos.
FICHAMENTO MANUSCRITO




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